Caloi
Elite 30 X Elite 20
Medir, Pesar, Analisar.
Quase um ano depois do lançamento ao público na Brasil Cycle Fair de 2012,
finalmente chegaram ao P29BR dois modelos de 29ers da linha
Elite da Caloi. Hoje, a mais tradicional marca de bicicletas do país é uma
empresa que se reestruturou visando ganhar mercado com a adoção de um modelo de
gestão mais profissional, por outro lado, reafirmou de maneira inteligente seu
comprometimento com o Ciclismo nacional. No caso do Mountain Biking, a marca
reuniu jovens talentos e criou a Caloi Elite Team, um ambicioso projeto de
longo prazo, que começa a apresentar resultados expressivos desde agora. Talvez
essa recente reinvenção interna e o inegável sucesso comercial da marca, tenham
colaborado para que a Dorel, gigante mundial do mercado de bicicletas,
decidisse pela compra a Caloi, negócio milionário que acaba de ser concretizado
e deve resultar em uma mudança de mentalidade no segmento, com reflexo direto
na forma de operação e atuação da própria Caloi e também da concorrência em
solo brasileiro. O consumidor pode, sem dúvida, esperar dias melhores.

A ideia do P29BR, a
partir deste post, testanto ao mesmo tempo a Elite 30 e a 20, é, como de
costume, apontar as diferenças técnicas e de desempenho entre cada uma, mas sem
parar por aí. Foram analisados também o peso de quadros e componentes, detalhes
construtivos e de geometria. Ao final, quem já é proprietário estará conhecendo
melhor sua Caloi, enquanto que eventuais compradores conseguirão identificar
qual delas melhor se adequa às suas necessidades. Os três modelos em alumínio
da linha Elite já podem ser considerados "best sellers", apoiados
principalmente por um preço quase que imbatível no segmento onde se
enquadram.
Os quadros
Nos fóruns, é impressionante a quantidade de informação especulativa quando o
assunto é a Caloi, uma delas diz respeito à origem dos seus quadros. Para que
não restassem dúvidas, o P29BR se dirigiu diretamente à fonte.
Segundo Bob Nogueira, que responde por Produtos na Caloi, os quadros da linha
Elite em alumínio são produzidos na Ásia com suporte do escritório da própria
Caloi sediado em Xangai. Os projetos dos modelos Elite 10/20 e 30 foram
executados no ano de 2012 em conjunto com o fornecedor que validou a geometria
sugerida pela Caloi, assim como desenvolveu processos especiais de pintura de
alta qualidade e durabilidade. Adicionalmente, a Caloi afirma que os quadros em
alumínio da linha Elite passam por rigorosos testes de durabilidade e fadiga,
em laboratório próprio localizado no interior de São Paulo. Esses testes seguem
a norma japonesa JIS, garantindo que cada amostra seja submetida a ciclos de
milhares de movimentos simulando impactos e esforços de torção. Em virtude de
restrições legais impostas por um acordo industrial, a Caloi não divulga o nome
desse fornecedor asiático.
Além da esperada diferença de componentes entre uma versão e outra, o projeto
do quadro da Elite 30 conta com algumas particularidades numa comparação direta
com a Elite 20 e a 10, mais baratas.

O material escolhido pela Caloi para
os quadros é uma liga de alumínio 6061. No triângulo dianteiro, os três modelos
aparentemente compartilham o mesmo down tube de perfil variável com reforço na
junção com o head tube, este de altura razoável, tem 110mm nos quadros tamanho
17" e é compatível com caixas de direção semi-integradas, o que ajuda a
manter o guidão numa posição menos elevada.
Na Elite 20 os conduítes de câmbios e
freio traseiro correm por baixo do top tube, cujo perfil é também variável, se
expandindo gradativamente até encontrar o seat tube.

Um top tube ovalado e ligeiramente
curvado valoriza as linhas do quadro da Elite 30, que segue uma tendência de
mercado com o roteamento interno dos conduítes de câmbio. Aí um detalhe
relevante, algo que a Caloi poderia considerar numa eventual evolução do
projeto da bike. O conduíte do câmbio dianteiro entra no quadro através de uma
discreta e eficiente guia metálica no lado esquerdo do top tube, no lado
direito do down tube está localizada a entrada do conduíte do câmbio traseiro.
Até aí, tudo parece bem, contudo idealmente o contrário seria mais correto, ou
seja, o conduíte do câmbio dianteiro deveria entrar pelo lado direito do
quadro, o do câmbio traseiro pela esquerda, assim se cruzariam em frente ao
head tube seguindo um caminho muito mais natural, modificação que inclusive
poderia melhorar ainda mais as trocas de marchas na 30.

Nos seat stays da Elite 20, a
presença de dois orifícios com roscas supostamente permitiria a montagem de um
bagageiro, o que seria muito bem vindo para aqueles que tem planos de realizar
cicloviagens, entretanto faltam os furos na altura das gancheiras para
completar a fixação de um rack. O mais curioso é que na gancheira da Elite 30
está presente a furação para um bagageiro, entretanto faltam justamente os
pontos de fixação nos seatstays.
Em ambos os quadros, o sistema de montagem dos freios traseiros é o post-mount,
o que chega a surpreender, pois é mais comum apenas em modelos de 29ers de
maior preço. No caso da 20, o suporte do freio está localizado na base do seat
stay, já na 30, posicionado no chain stay, é ainda mais eficiente e agrega
valor ao quadro. Ao contrário, igualmente surpreendente é a concha do movimento
central com apenas 68mm de largura. Há muito tempo o P29BR não
testava uma bike cuja concha do central que não tivesse ao menos 73mm.

Apesar dos quadros tamanho 17" permitirem a montagem de dois suportes de
caramanhola, na prática o seat tube curvado da Elite 30 diminui o espaço
disponível dentro do triângulo dianteiro e inviabiliza o uso simultâneo de duas
garrafas.
A geometria
No quesito geometria, a Caloi parece ter preferido seguir um caminho mais
conservador, optando para uma fórmula até certo ponto à prova de erros, sendo
assim elegeu números "tradicionais" para os ângulos do tubo de
direção (head angle) e do tubo do selim (seat angle), 71 e 73 graus,
respectivamente. Na prática, pelas medições realizadas pelo P29BR,
o seat angle se mostrou ligeiramente mais elevado nas duas bikes, próximo a 74
graus, o que pode ser benéfico em termos de rendimento de pedalada.
Na traseira estão as diferenças geométricas mais evidentes entre a Elite 20 e a
30. Na primeira, os chain stays tem 450mm de comprimento, um número quase que
padrão para as 29ers da categoria, já na 30 esse número cai para interessantes
438mm, que resultam em uma distância entre eixos mais curta e um prometido
ganho em agilidade. A viabilidade dos chain stays mais curtos está diretamente
ligada ao seat tube curvado da Elite 30, característica que afasta o pneu
traseiro da linha de ação do câmbio dianteiro, o espaço adicional favorece seu
correto funcionamento e ainda facilita o escoamento de lama.

A medida da diferença de altura entre
os eixos das rodas e o eixo do movimento central, o chamado bottom bracket drop,
é maior na Elite 30, são 60mm, um número igualmente conservador, ainda que
correto. Com o piloto posicionado um pouco mais para "dentro" da
bike, a Elite 30 tende a ganhar em termos de estabilidade e comportamento em
curvas rápidas numa comparação com a 20.
O peso
Preocupação comum de 9 entre 10 consumidores de bicicletas de performance no
Brasil, o assunto peso precisa ser tratado sempre com um algum cuidado. Num
comparativo entre marcas concorrentes, antes de formar opinião, o ideal é mais
uma vez comparar preferencialmente modelos que se encaixam numa mesma categoria
de produto.
O exemplar de testes da Elite 30 pesou 13.75 Kg com os pedais de encaixe Candy
1 da Crank Brothers. No caso da Elite 20, o peso aferido com os pedais de
plataforma originais foi de 14.40 Kg. Números que num contexto geral não podem
ser considerados modestos, contudo bastante aceitáveis para a realidade
brasileira considerando outras bikes inseridas num segmento de 29ers que custam
entre 3.000 e 4.000 reais.
Havia uma grande expectativa dos leitores em relação ao peso dos quadros em
alumínio da linha de 29ers da Caloi. Com 1.830 gramas, o quadro da Elite 30 é
160 gramas mais leve que o da Elite 20, que pesou 1.990 gramas, ambos no
tamanho 17" e sem as abraçadeiras de canote. Como curiosidade, a primeira
versão da Caloi Two Niner testada em 2009 pelo P29BR tinha
um quadro de características mais simples com peso na casa de 1.950 gramas.
As suspensões Rock Shox e RST montadas nas bikes tem características e pesos
muito similares, entretanto chama a atenção o fato de que as hastes da RST
Omega que equipa a Elite 20 tem 32mm de diâmetro, enquanto que na XC 30 da
Elite 30, como o próprio nome já diz, as hastes são de 30mm. O modelo da Rock
Shox tem 2.290 gramas incluindo a trava de guidão, contra 2.320 gramas da
suspensão RST.

Apesar de contarem com cubos SRAM de aparência similar, mas denominações
distintas, MTH-406 na Elite 30 e MTH-306 na 20, montadas com aros de 470 gramas
produzidos pela VZAN, as rodas podem ser consideradas quase que idênticas, com
exceção do grafismo coordenado combinando com as cores de cada modelo da linha.
Ambas as rodas dianteiras pesaram os mesmos 1.120 gramas cada, já as traseiras
apresentaram uma pequena variação que extraordinariamente favoreceu a Elite 20,
são 1.310 gramas contra 1.345 gramas na Elite 30. Na balança o peso total
registrado para as rodas da Caloi Elite 20 foi de 2.430 gramas, 35 gramas a
menos que os 2.465 gramas das rodas da Elite 30. Nos dois casos foram
desconsideradas as blocagens. A título de comparação, no mercado existem rodas
intermediárias pesando menos de 2 Kg.

Considerando o conjunto de cada bicicleta dividido de forma didática em quatro
partes principais, ou seja, quadro, suspensão, rodas (rodas, pneus e câmaras) e
componentes (transmissão, freios, canote, selim, mesa, guidão, etc). A razão de
peso entre uma parte e outra é praticamente constante entre as duas 29ers da
Caloi testadas pelo P29BR, de todas as formas, merecem menção os
quase 500 gramas a mais de peso nos componentes da Elite 20.
Tanto no caso da Elite 30, quanto no
da 20, as rodas completas correspondem a praticamente um terço do peso total da
bike, por isso mereceriam uma atenção especial, até mesmo porque a cartilha das
29ers prega que quanto menor o "peso rodante" melhor o desempenho
geral do conjunto.

O que esperar dos testes
No papel, as 29ers em alumínio da Caloi demonstram um indubitável potencial. Os
quadros são bem acabados, com grafismo atual e uma pintura brilhante de ótima
aparência. Em relação à geometria, a marca preferiu o certo ao duvidoso, o que
é compreensível pensando em custos de desenvolvimento e prazos, contudo num
comparativo rápido com a concorrência, os quadros tamanho 17 e 19" da
linha Elite são bastante compactos, talvez se projetados com um top tube um
pouco mais longo pudessem atender a uma gama maior de ciclistas; de qualquer
forma, este é um tema para ser melhor explorado e desenvolvido no próximo post,
junto com as impressões doP29BR sobre o desempenho das bikes. Como
era de se esperar em modelos posicionados no mercado nacional na faixa de preço
ao consumidor de até 4.000 Reais, não são bikes leves, entretanto também não
chegam a destoar dos concorrentes. Suas rodas sim, estas mereceriam ao menos
raios e nipples mais leves.
Fique atento, nas próximas semanas as impressões finais do P29BR sobre
as 29ers da Caloi.
Keep 29eriding!